Archive for May, 2010

A Cidadania E A Mão Invísivel Da Ditadura – Nelson Pestana

Posted 31 May 2010 — by Luiz Araújo
Category Artigos em Destaque, Política, Economia, Cultura & Sociedade

Com a devida vénia ao club-k.

Luanda – Assinala–se, em todo o mundo, o dia internacional da cidadania, a 18 de Maio. Aqui, no nosso pais, onde há um gosto particular para pelas  comemorações, a data passou quase despercebida. Digo quase porque houve quem se tenha lembrado de assinalar esse  dia procurando falar do sentido dessa palavra que é cidadania. Foi o caso meritoso da Rádio Luanda. Fui convidado para estar presente, no espaço das 8 às 10 horas e lá fui. Nos estudios tive o prazer de encontrar  Fátima Viegas que também tinha sido convidada para o mesmo efeito.

Começamos então a falar do tema, guiados pelo  pivot (gosto  desta palavra, pois o seu campo semantico esta associado a ideia de centro aglutinador, organizador e distribuidor de uma actividade; aprendia–a quando jogava basquetebol e designavamos então o base por esse nome) dizia, guiados pelo  pivot do programa, o Paulo Miranda. Coube a mim começar a falar e comecei por dizer que a cidadania, antes de mais, é entendida como a ligação entre  um indivíduo e um soberano, uma pessoa e um Estado. E que a cidadania, neste caso, seria definida como uma relação política que sustenta a inserção de um indivíduo numa polis (em grego) ou numa civitas (em latim). Neste sentido, a cidadania confunde –se  com o conceito  de nacionalidade porque valoriza os traços distintivos dos membros de uma comunidade política.
Mas a cidadania é mais do que esse laço político, a cidadania é definida por dois elementos: um elemento identitário que se traduz no sentido de pertença partilhado pelo conjunto de membros de uma mesma comunidade social e um elemento estatutário que se expressa pelo conjunto de direitos (e deveres) de que é portador cada membro da comunidade e desta no seu todo. Para além disto, disse que a cidadania podia ser entendida num plano abstrato enquanto núcleo de direitos atribuidos a cada membro da comunidade e num plano concreto, a partir das formas de acesso a esses direitos. O que faz da cidadania não apenas uma realidade jurídica mas também uma realidade social. A cidadania expressa –se pela relação entre o cidadão –direitos (sujeito de direitos positivos) e o cidadão –social (ser integrado num meio, onde se desenvolve em relação com outros individuos ou instituições). Isto implica saber quais são os modos e lugares de realização desses direitos que prefazem o estatuto de cidadão. A cidadania ultrapassa pois o mero ambito legal, a simples consagração formal de direitos abstractos, demanda que estes se materializem, através da capacidade, em concreto, de acesso a recursos e bens.

E se esta capacidade não é endógena à família ou ao próprio membro da comunidade, a sociedade tem que a assumir como sua através da expressão da solidariedade que é também  um garante da coesão social. Ora, a solidariedade implica a socialização dos riscos  do desenvolvimento desigual e, mesmo, do trabalho. Na verdade, a cidadania implica uma solidariedade a todos os níveis que permita todos os seres humanos participarem do conjunto de bens disponíveis, nomeadamente daqueles que são absolutamente inerentes à condição humana, quer através da sua produção, quer através da sua partilha.

Então uma cidadania plena implica a liberdade de escolha dos governantes, numa sociedade   de concorrência, não apenas económica mas também política, aberta à emulação de projectos e pessoas. Implica a possibilidade de fiscalização do cidadão destes eleitos mas também a participação dos próprios cidadãos nas escolhas e determinação das políticas públicas.

Ora, o que se constatava no pais é que a cidadania em concreto tinha muito pouco de real. Desde logo porque o salário minimo nacional adquirido não chegava para comprar a cesta básica definida pelo Ministério do Planeamento que é constituida por um conjunto de produtos tidos como essenciais para as famílias angolanas não descerem para lá da linha vermelha humana. Dito isto, deixando para depois a possibilidade de falar de forma mais amiude dessa relação entre o cidadão-direitos e cidadão-social, passei a palavra a Paulo Miranda que colocou de imediato a mesma questão a Fátima Viegas. Esta corroborou, no geral, o que já tinha dito, e sublinhou o papel da solidariedade como elemento da cidadania. Dando como exemplo os direitos de cidadania, consagrados na Constituição, enfatizou os esforços do governo para  resolver os graves problemas sociais que o país vive e que impedem quase cerca de 68% dos angolanos de disfrutarem de uma cidadania plena, para lá dos simples direitos civis.

O empenho militante de Fátima Viegas, motivado pelas minhas leves críticas ao governo, levou-a a dar como exemplo de cidadania a realização do CAN, pois para ela o CAN tinha sido um motivo de orgulho nacional, procurando reforçar a sua opinião pelo facto de eu  ter dito antes, ao falar do elemento identitário, que vibrava, como todos os angolanos, as nossas meninas ganha o campeonato africano de andebol, ou quando a nossa selecção de futebol ganha um jogo. Logo que retomei a palavra discordei deste culto do orgulho nacional por teremos organizado um CAN exemplar. E disse que o CAN tinha sido, no minimo, uma escolha equivocada, pois o país gastou (segundo a revista Exame) 2 mil milhões de dolares americanos que dificilmente terão retorno quando deixou de aplicar quantia equivalente, por exemplo, nos sectores das águas e da educação. Areas estas que são, como já o disse, em outros textos, as prioridades estrategica e social do país. E essa escolha equivocada, que gerou uma certa euforia, momentânea, de uma parte dos angolanos, que poderá ter feito as glórias do poder, aos olhos do futebol africano, era motivo impeditivo do exercício de direitos de cidadania de muitos mais angolanos que continuam privados de acesso à escola e à àgua potável.

Prova disto, acrescentei, é a imagem emblemática do Estádio 11 de Novembro, em Luanda, que na sua imponência, magestatica e solitária, ofusca a abandonada obra do Campus Universitário (que devia ter terminado em 2006 e, somente este ano,  foi anunciada a conclusão da primeira fase) e da Estação de Tratamento de Águas de Bita-Viana que deveria garantir o abastecimento de água potável a zona circunvizinha e, nomedamente, ao complexo habitacional do chamado novo Kilamba Kiaxi.

Aí, a mão invísivel da ditadura coagiu Paulo Miranda a terminar abruptamente o programa. Como bom profissional, nada disse, mas despediu-se dos seus dois convidados e encerrou o debate, cerca de meia hora depois dele ter começado. Quando me despedi das pessoas da redacção reparei que o próprio director da Rádio Luanda lá estava com ar preocupado e, quiça, encabulado, por ter cedido a pressão vinda de cima. As comemorações do dia da cidadania ficaram assim marcadas pela violação dos direitos de cidadania.

Fonte club-k

Entretanto paira a miragem de um milhão de casas prometidas ao povo – o prometido é devido, sabem né? A cidade cheia de novos brilhos e o musseque mais cheio de choro. Outra vez!

Posted 31 May 2010 — by Luiz Araújo
Category Política, Economia, Cultura & Sociedade

Assim também foi na época colonial em que a cidade do asfalto se ergueu brilhante de luzes e capital enquanto nos musseques brilhavam nos olhos do povo as lágrimas do pranto da pobreza. O endocolonialismo que hoje fabrica o nosso inferno é só a continuação dessa epopeia colonial, hoje, pelos rendidos da libertação aos rendimentos do mercado por meia dúzia que se tornaram super milionários e junto com os “donos do poder” impõem a sua dominação à sociedade em vez de agirem para o seu desenvolvimento global harmonioso.

Nas suas tumbas revolvem-se os heróis que se deram pela nossa libertação. Deolinda, Hoji Ya Henda, entre tantos outros mais conhecidos e anónimos que Fevereiro de 61 e a luta anti colonial que lhe sucedeu fabricaram. Luiz Araújo

Quem vem da marginal de Luanda e se dirige ao Largo do Ambiente poderá ver à sua esquerda  a discreta Igreja de Nossa Senhora da Nazaré. Construída em 1664, é a mais antiga de Luanda e, para muitos, a mais carismática. O templo era um lugar de peregrinação para os “caluenses” (gentes do mar). Monumento nacional, a igreja é conhecida pelos seus belos painéis de azulejos e pela “santa negra”, Santa Ifigénia da Etiópia.

A madre Catarina, senhora de rosto vivido, olhar alegre e sorriso aberto, afirma-nos que a veneração a Nossa Senhora da Nazaré — Mama Nasi como é conhecida entre os crentes — tem aspectos miraculosos que nunca reconheceu noutros cultos à Virgem Mãe, seja em Fátima (Portugal) ou Guadalupe (México).

Longe vão os tempos em que o templo era banhado pelas águas da baía. Hoje, totalmente em terra firme e vários metros do mar, mantém-se como um refúgio espiritual da cidade. “À Mama recorrem pessoas com e sem fé, de várias confissões religiosas. Até os maldosos chegam a visitar-nos antes de cometerem o crime”, refere a madre divertida. “Nossa Senhora da Aflição”, “Nossa Senhora da Fecundidade”, são outros nomes que os crentes adoptam conforme o problema que apresentam à virgem. “Há também os que a Ela recorrem por causa dos negócios”, diz-
-nos lembrando-se de que está a falar para a EXAME.

Um novo templo da arquitectura moderna

A alusão ao mundo dos negócios é justificada por outra razão. É que a poucos metros da pequena igreja salta à vista um edifício imponente com 28 andares que se erguem a 120 metros de altura, encimados por um heliporto. O contraste é evidente entre as linhas arredondadas da torre sineira e as linhas mais duras e contemporâneas de um arranha-céus, com 40 mil metros quadrados de área bruta, que marca o perfil de Luanda. A nova “catedral” do imobiliário em Luanda chama-se Torre Ambiente, nome que a promotora, a CR Roca, foi buscar ao largo. Esta empresa é constituída por três empresários com provas dadas no mercado angolano: José Cristóvão, proprietário do conhecido Hotel Presidente; Carlos Serralheiro, ligado do sector de transporte e logística; e Rogério Leonardo, homem relacionado com construção civil, e promotor do Edifício Rey Katyavala. Marco Cardoso, director comercial da CR Roca, salienta que “o empreendimento pretende ser uma referência na cidade em termos de arquitectónicos, qualidade de construção e localização”.

Entrega no primeiro semestre de 2011

No total, a Torre Ambiente é constituída por 90 fogos com tipologias de T1 a T5 Duplex e áreas diversificadas, entre 93 e 1167 metros quadrados. No total, o edifício possui 21 900 metros quadrados dedicados à habitação de luxo (19 pisos), assim distribuídos: 4 duplex T5, 30 apartamentos T4, 16 de tipologia T3, 24 fogos T2 e 16 do tipo T1. Os seis primeiros pisos da Torre Ambiente destinam-se a escritórios, num total de 12 mil metros quadrados, com entrada independente e quatro elevadores exclusivos. O metro quadrado custa 8 mil dólares (ao passo que a habitação é cerca de 10 mil).

Entrega no primeiro semestre de 2011

Essa não é, no entanto, a norma do mercado, dado que geralmente os escritórios têm um custo mais elevado do que as habitações. Prevê-se que a construção da Torre Ambiente possa estar terminada no início do próximo ano. “Neste momento, cerca de 40% do edifício já estão vendidos”, esclarece Marco Cardoso.

Mas a “imagem de marca” da Torre Ambiente são os luxuosos T5 Duplex com áreas que variam entre 995 e 1167 metros quadrados, com piscina, terraços e uma vista soberba sobre a baía de Luanda. O preço de venda destes apartamentos (quatro no total) é de 9,995 milhões de dólares e ocupam os 26.º, 27.º e 28.º andares. A este propósito, Marcos Cardoso sublinha que “o preço do metro quadrado está dentro do mercado para a habitação de luxo. O que os distingue são as suas grandes áreas, o que faz subir o preço de venda”.

O apartamento mais barato situa-se no oitavo andar. Trata-se de um T1 com 93 metros quadrados que custa 930 mil dólares. Os valores são comparáveis aos dos edifícios mais caros do mundo tais como o Donald Trump Building, em Manhattan (veja comparativo abaixo).

No 7.º piso, entre a área de escritórios e habitação, existe um plateau com restaurante panorâmico, esplanada, um ginásio, um SPA e piscina exterior. Trata-se de uma área com 1100 metros quadrados, “um espaço exclusivo de lazer com ambiente seleccionado e distinto”, segundo Marco Cardoso. A esplanada tem um deck de madeira com vista para a baía de Luanda.

Ao nível da rua grandes montras marcam o espaço. No total são 2800 metros quadrados, vocacionados para o comércio. Abaixo do solo, a Torre Ambiente dispõe de cinco caves para estacionamento, com capacidade para 300 automóveis. Os promotores prevêem a entrega do imóvel durante no primeiro semestre de 2011. “O edifício ganhará vida própria e vai responder aos desafios do século em termos de qualidade de vida, tecnologia e segurança”, refere Marco Cardoso com orgulho.

Fonte: EXAME  - Leia mais

Angola:Fundação 27 de Maio Quer Justiça

Posted 30 May 2010 — by Luiz Araújo
Category Política, Economia, Cultura & Sociedade

Fotos: esquerda Nito Alves e à direita Cita Vale – ambos fuzilados como dezenas de milhares de outras angolanas e angolanos na sequência do conflito interno que resultou na alegada tentativa de tomada do poder pela ala do MPLA liderada por Nito Alves.

Sobreviventes e familiares das vítimas do fuzilamento promete intentar um processo-crime contra o MPLA, o partido no poder.

A 27 de Maio de 1977,quando fracassou uma revolta ou tentativa de golpe contra o partido no poder o MPLA.

Nos dias e semanas seguintes milhares de pessoas foram presas. Muitas sumariamente executadas.

Pois, em em Luanda a Fundação 27 de Maio, uma organização de sobreviventes e familiares das vítimas do fuzilamento promete intentar um processo-crime contra o MPLA, o partido no poder.

Enquanto isto a direcção do MPLA não faz qualquer comentário sobre o assunto porque considera não existir seriedade por parte da Fundação 27 de Maio, além do que não há registo de alguma queixa junto dos tribunais sobre esta matéria.

fonte: Voz da América

Activista Angolano Intervém na Assembleia-Geral da Chevron

Posted 30 May 2010 — by Luiz Araújo
Category Direitos Humanos - Comunidades

Elias Isac acusou o director-geral, John Watson, de mentir sobre o empenho da empresa na defesa do meio ambiente nos países onde opera

O activista angolano Elias Isac entrou na assembleia-geral da Chevron e acusou o director-geral, John Watson, de mentir sobre o empenho da empresa na defesa do meio ambiente nos países onde opera. Isac integrava um grupo de activistas que tentaram participar na assembleia-geral daquela petrolífera a decorrer no Texas. A maioria não logrou entrar, mas Elias Isac conseguiu… E apresentou as suas queixas sobre o impacto dos derrames de petróleo na actividade piscatória em Cabinda. Relata o sucedido ah VOA numa entrevista com Luís Costa Ribas.

E do Texas vamos para Cabinda, onde o nosso correspondente José Manuel foi ouvir com os pescadores locais. A redução do pescado e a degradação do meio ambiente são duas constantes relatadas em primeira mão pelos pescadores cabindenses.

A VOA procurou obter uma reacção oficial por parte  da petrolífera Chevron. Mas, tanto em Cabinda como em Luanda, os responsáveis pelas relações públicas da Chevron recusaram pronunciar-se sobre as acusações que são publicamente feitas aquela empresa.

fonte: Voz da América