Archive for September, 2010

Cidadão português raptado em S. Tomé por agentes angolanos

Posted 27 Sep 2010 — by Luiz Araújo
Category Política, Economia, Cultura & Sociedade

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Por Willian Tonet e Arlindo Santana, Folha8 - A Presidência de São Tomé e Príncipe e um grupo de advogados, bem como o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal, têm estado a desenvolver uma campanha de denúncia contra a postura expansionista e “invasora” dos agentes policiais de Angola, que no final do ano passado, realizaram uma operação relâmpago, considerada de “sequestro” de um cidadão português que se encontrava legalmente no arquipélago, violando dessa forma a soberania de um Estado e o Direito Internacional.

O clima de tensão entre os presidentes Fradique de Menezes de São Tomé e Príncipe e José Eduardo dos Santos de Angola, poderá não diminuir, para lá do cinismo político, muito pela pressão e denúncia de advogados são-tomenses, pela forma como o empresário Jorge Manuel dos Santos Oliveira, foi “sequestrado” por agentes da Polícia angolana naquele país da CPLP.

“Um país sério e democrático deve respeitar a soberania e as instituições dos outros países, por mais pequenos que sejam, como é o nosso caso, sob pena de ficar patente que Angola é uma ditadura expansionista, cuja matriz é a desestabilização e invasão de outros Estados soberanos, que não tenham a mesma capacidade militar que a sua”, denunciou ao F8, o advogado de São Tome, A. Manuel António.

Este “desabafo – denúncia” surge numa altura em que Angola assume a presidência da CPLP e se fala do seu empenho em enviar uma força militar de estabilização e organização das forças armadas guineenses.

“A cultura dos angolanos é arrogante, militarista e ainda ligada a uma visão de guerrilheiros comunistas, pois para eles não contam os governos dos outros países, mas os seus amigos dos antigos movimentos de libertação, logo, não têm uma visão de Estado. Por isso, financiaram o MLSTP nas últimas eleições, mas apesar dos milhões de dólares de Angola e de Eduardo dos Santos, os seus aliados perderam redondamente, porque o nosso povo julgou e condenou essa arrogância e interferência do partido MPLA, já há muito tempo a desgastar-se no poder em Luanda”, disse a nossa fonte.

Tudo isso, na sequência de aventuras económico-financeiras já de si rocambolescas, entre Mello Xavier e um dos seus mais importantes quadros superiores, Jorge dos Santos de Oliveira, num desentendimento que trouxe à praça pública a lavagem de muitas engenharias, qual delas a mais danosa e dolosa, contra os interesses do Estado angolano.

“O rapto do Jorge Oliveira visa tentar esconder o envolvimento de altas figuras angolanas em negócios sujos, realizados com o senhor deputado do MPLA, Melo Xavier. Como se pode entender, que este senhor tenha vendido ao Ministério do Interior camiões Kamaz da Rússia, avaliados já com a comissão em 12 milhões de dólares, mas não se sabe como aumentaram o seu valor em 100%, emitindo uma factura de 24 milhões de dólares, que foram pagos e que são do conhecimento do Jorge”, disse um dos causídicos que o defende.

Verdade ou não, o que é certo é que o seu antigo boss angolano, indignadíssimo, acabou por o impugnar, “não junto às barras dos tribunais, por vias lícitas, mas optando por silenciar o homem pela força da manipulação, para assim esconder os segredos que ele detém sobre um enriquecimento ilícito e “esquemático”, que lesou gravemente os cofres do Estado angolano, “com a maior das impunidades e cumplicidades”.

Diante deste quadro ameaçador, o homem sentiu saudades de Portugal, sua terra natal, girou e partiu. Por aí ficou um par de anos e voltou passados uns anos, em 2009, não a Angola, não fosse o diabo tecê-las, mas por perto se ficou. Deu uma saltada a São Tomé. Infelizmente para ele, o “mafarrico” era lá que estava. À sua espera.

O cidadão português Jorge Oliveira foi preso, atentemos, por agentes policiais angolanos, naquele pequeno paraíso terrestre, sem perceber bem porquê. Tiveram que lhe explicar.

- “O senhor lembra-se daquele dinheiro que havia nos cofres do seu patrão, o empresário e deputado do MPLA, camarada Mello Xavier?…
- “Não me lembro do que estão a falar…
- “Não? Bom, uma queixa-crime foi depositada contra si e temos que levá-lo”.
- “Para onde?” teria perguntado Jorge Oliveira.
- “Para Luanda, meu amigo, para Luanda”.
- “Mas estamos em São Tomé !”.
- “Não faz mal, temos avião”.

Estava consumado o rapto, ilegal, pois se havia um Mandado de Captura, este não tinha validade internacional por não percorrer os requisitos, mais a mais por o visado estar legalmente noutro país.

“Nós não recebemos, nem oficial, nem oficiosamente, nenhuma carta rogatória de Angola solicitando diligências para interrogatório ou extradição do cidadão português. Fomos apenas surpreendidos, horas depois da invasão dos angolanos, com a informação desta deselegante e grave situação, como se fossemos uma colónia de Angola”, explicou ao F8, um juiz do Tribunal de São Tomé

Ao que parece, não havia um compromisso com a lei, mas com a força, e por esta razão já havia no aeroporto são-tomense um avião à espera do Sr. Oliveira, uma nave ligeira fretada ou propriedade do empresário – deputado do MPLA, Mello Xavier, “com um falso plano de voo, pois enganaram, também, os serviços de navegação aérea angolana”.

Como depois ficou provado, os polícias eram angolanos, afectos à Investigação Criminal e a operação, segundo consta teria sido gizada, previamente, no gabinete do ministro do Interior de Angola, general Ngongo, considerado, por muitos, sócio de Mello Xavier ou seu protector.

Repetimos, o alegado crime de que é acusado Jorge Oliveira não tinha sido objecto de nenhum pedido de intervenção da Interpol. E por mais explicações que lhe fossem dadas, o refém não podia compreender o sequestro de que era vítima, sendo este o termo exacto, vítima, pois nada lhe podia ser apontado como crime cometido em São Tomé e Príncipe.

Estamos em crer que esta operação tipo “James Bond” em caso algum possa ser avançada como abonatória dos nossos serviços de policiamento e defesa do território, por mais secretos que sejam.

Senão, resumindo o que se passou, repare-se:

1 – O senhor Jorge Oliveira teria roubado Mello Xavier, uns 100 mil dólares (se não roubou, tentou).
2 – Mello Xavier roubou o Estado (se não roubou, tentou).
3 – Jorge Oliveira fugiu.
4 – Mello ficou em Luanda a passear nos seus jipes e a arriscar a vida no seu helicóptero e avionetas podres. Intocável, em todo o caso. Deus é grande.
5 – Jorge Oliveira vai a São Tomé e é preso por polícias angolanos.
6 – Mello Xavier pega no seu telemóvel, telefona à Polícia e fica a saber que o seu ex-colaborador está a ferros. Agradece, talvez dê uma “gasosa”. Apesar de sobre ele pesar a acusação de ter desviado 12 milhões de dólares ao Estado angolano, tendo passado em sítio lindo o Réveillon, talvez no Mussulo!
7 – Jorge Oliveira continua ilegalmente detido em Viana, em todo o caso na prisão, como resgate duma inacreditável prepotência, “Made in Angola”.

Não há comentários a fazer sobre este tipo de situações. De facto, em Angola uns podem tudo, outros não podem nada. E quando dizemos podem, referimo-nos a desmandos. Numa palavra parece não haver leis em Angola, nem direito, só há directivas.

A retrospectiva deste caso de prepotência e ladroagem de fato e gravata era indispensável fazê-la para compreender os desenvolvimentos que dele advieram recentemente.

Dos Santos último a saber desta trama vergonhosa

Segundo informações de fonte segura as autoridades de São Tomé e Príncipe, assim como as de Portugal, têm pressionado e denunciado, com maior intensidade em fóruns diplomáticos internacionais, a postura “guerreira e invasora” das tropas policiais de Angola, que, no caso vertente, a um dado período do ano passado, 2009, entraram em jeito de assalto no arquipélago de São Tomé e sem qualquer mandado judicial, nem tão-pouco uma decisão de um tribunal sobre sentença de extradição. Raptaram o cidadão português Jorge Manuel dos Santos Oliveira, antigo gestor de Melo Xavier, na altura dos factos deputado da bancada parlamentar do MPLA. E ponto final.

A forma muito arriscada como esse homem foi preso, à margem de todas as leis, visava, segundo algumas fontes, ocultar o envolvimento de altas patentes do Ministério do Interior com o antigo deputado, Mello Xavier, deixando supor uma cumplicidade do governo são-tomense. Assim, não admira que, ao tomar conhecimento do acontecido, o Presidente Fradique não tivesse gostado da brincadeira. Por seu lado, Dos Santos ainda gostou menos, pois só teve conhecimento do caso por essa via, num desabafo.

Uma outra versão, no entanto, veiculada por outra fonte do F8, garantiu ter Dos Santos manifestado o seu desagrado, na última reunião do Bureau Político do MPLA, nos seguintes termos: “Já nem na Polícia ou Segurança do meu país posso confiar, pois foi a minha mulher que teve de me informar este comportamento, que era do meu total desconhecimento”.

E se assim é, o desagrado ainda devia ter sido maior, pois esses polícias na golanos armados em “james bondezitos” tinham andado a brincar com o nome e a reputação de Angola e do Presidente da República. Isto sem se poder esconder que este, e, estamos em crer, muitos, mas mesmo muitos outros casos lhe teriam sido escondidos e continuarão a sê-lo. É já uma tradição do “ÉME”, desde o tempo de “Manguxe” Uanhenga Xitu sabe do que estamos a falar, ele que o diga.

Com base nessa informação, como era de esperar uma onda de solidariedade rodeou Dos Santos, enquanto uma outra, de condenação, apontava baterias contra Leal Monteiro Ngongo, ministro do Interior, José Cerqueira, Director da DNIC e ainda do procurador que legalizou esta rocambolesca aventura.

“Na minha opinião estes camaradas devem ser demitidos, pois estão a manchar o nome do camarada presidente José Eduardo dos Santos, que ,coitado, não sabia, nem lhe informaram, do país e do MPLA, por ser grave a situação, principalmente agora que assumimos a presidência da CPLP”, confidenciou ao F8, um membro do comité central do MPLA, que por razões óbvias solicitou o anonimato, acrescentando ainda o facto de “ter sido mesmo uma invasão e rapto, pois ficamos a saber que este cidadão português veio sem nenhum documento pessoal, logo entrou ilegalmente em Angola, e isso é grave, pois não se trata de uma questão de Estado, mas de negócios particulares, que deveriam ser resolvidos em tribunal. Agora desta forma é muito grave e se eu tivesse poder de decisão exonerava imediatamente toda a direcção do Ministério do Interior e mandaria investigar todos os pagamentos feitos pelo Estado ao camarada Mello Xavier”.

O investigador presidencial

Apresentando-se deste modo a realidade, foi ordenada a abertura duma investigação por quem de direito, um personagem fantástico, angolano, que não se parece com ninguém e pode fazer tudo. O dito cujo mandou investigar a sequência de procedimentos que ocasionaram um tão inesperado e ao mesmo tempo previsível lesa-majestade na pessoa de Sua Excia. Portugal tinha manifestado por via diplomática o seu descontentamento e a Presidência da República de Angola mostrado o seu desagrado. Países irmãos é assim, sempre em consonância.

Os resultados de todas as investigações sobre este complicado caso parecem, até agora, nulos, por uns continuarem a confundir o Estado angolano com o MPLA, tal como os seus símbolos. Pouca sorte!

No entanto, um grande número de advogados de São Tomé, não se conformam com tantas arbitrariedades a lesar a lei e um Estado de direito democrático, e por ora estão a fazer uma campanha internacional, denunciando a postura musculada das forças armadas e policiais angolanas, por eles consideradas, “peritas especializadas na destabilização da democracia, não só do seu próprio país, como de outros países da região”.

Uma tradição. Que não é ancestral, mas a que a produção de petróleo não está alheia.

Fonte: Zwela Angola

Presidencialismo absoluto

Presidencialismo absoluto

 

Vicente Pinto de Andrade

A notícia segundo a qual o Presidente da Assembleia Nacional, Engº Paulo Kassoma, decidiu a suspensão temporária de qualquer acção de controlo e fiscalização do Parlamento angolano sobre as actividades do Executivo foi ignorada pela maioria esmagadora da nossa comunicação social.

As grandes excepções terão sido o semanário «A Capital» e a Rádio Ecclésia, emissora católica de Angola. E mesmo assim, «A Capital» e a Rádio Ecclésia não lhe deram honras de primeira página. Isaías Samakuva, presidente da UNITA, durante a sua última conferência de Imprensa, teve o mérito de não ter deixado passar em branco uma tão má noticia para a vida democrática no nosso país. Os comentários do deputado do MPLA, João Pinto, vieram, não só confirmar a notícia, mas também aumentar as minhas preocupações sobre o futuro da originalidade do «sistema parlamentar-presidencial angolano», quando afirmou que a legitimidade do poder legislativo é, idêntica à legitimidade do poder executivo.

Estou com Robert Dahl (Democracia, 1999) quando afirma que a tarefa de elaboração de uma nova constituição, ou de revisão de uma já existente, não deveria ser realizada de ânimo leve e “é tão difícil e complexa como desenhar uma nave espacial tripulada para investigar o espaço cósmico.” A tarefa de desenhar uma nave espacial não deve ser entregue a amadores, assim como “a concepção de uma constituição exige os melhores talentos de um país ” A grande diferença é que as inovações constitucionais importantes são para durar, e, por maioria de razão, exigem também a aceitação e o consentimento dos governados. Aparentemente, tivemos a possibilidade de escolher, entre três alternativas constitucionais, aquela que deveria ter sido mais adequada para o futuro do nosso país. A prática começa a mostrar-nos que a solução constitucional escolhida pela maioria dos nossos deputados é a que oferece mais riscos para a estabilidade política do nosso país.

Reconheço que não foi tarefa fácil para os nossos deputados. A intervenção do Eng ° José Eduardo do Santos marcou o rumo da discussão. Agora, a decisão do Engº Paulo Kassoma representa, sem dúvida, uma entorse na relação entre o Parlamento e o Poder Executivo. Estamos perante o facto de que a nossa Lei Fundamental é uma verdadeira obra de engenharia constitucional. Estamos a derrapar para o “presidencialismo absoluto” A história politica angolana aconselhava a escolha de um sistema de governo que garantisse, claramente, a separação de poderes.

Há várias combinações possíveis de sistemas eleitorais e sistemas de governo. As democracias mais antigas privilegiam a combinação de um sistema parlamentar em que os membros são eleitos através de um qualquer sistema de representação proporcional. Nas democracias de língua inglesa, exceptuando os Estados Unidos da América, a opção foi por um governo parlamentar com eleições através do sistema «First-Past-the-Post o primeiro na linha de chegada» (FPTP). A opção americana traduz-se na combinação de um governo presidencial com eleições FPTP e foi seguida por pouco mais de meia dúzia de países. A chamada opção latino-americana resulta da combinação de um governo presidencial com eleições legislativas através de um sistema de representação proporcional. Os países da América Latina têm mostrado forte preferência pelo sistema de governo presidencial, embora associado a um sistema eleitoral de representação proporcional. Em Angola, a escolha da maioria dos deputados foi, no fundo, a opção latino-americana, embora ajustada “aos sabores e gostos locais”.

Nada justifica a suspensão da acção de controlo e de fiscalização do Parlamento sobre as actividades do Executivo. Não colhe o argumento de que está em curso a elaboração de um instrumento legal que estabelecerá um quadro normativo para o exercício da acção fiscalizadora da Assembleia Nacional. A opção por uma forma de Governo de concentração de poderes ou por uma forma com divisão de poderes é determinada pela natureza do regime político. E mesmo naqueles países de sistemas com divisão de poderes, o funcionamento real da articulação dos diversos órgãos de soberania têm dependido muito mais da natureza do regime do que das prescrições constitucionais. Isto é, a relação existente entre os cidadãos e os respectivos órgãos do poder político é a grelha de análise apropriada para nos apercebermos do rumo de uma democracia nascente. Corremos o risco de regressão democrática, se não estivermos atentos aos reais e potenciais malefícios do velho “presidencialismo absoluto”. No passado recente, os três movimentos independentistas, MPLA, FNLA e UNITA, viveram essa experiência, que gerou ondas de violência. Hoje, temos que aprender com os erros do passado.

A manutenção da “estabilidade” democrática não é o único critério relevante para se obter uma boa constituição. A justiça na representação, a transparência, a compreensibilidade, a sensibilidade e o governo eficaz, entre outros, também são importantes. Contudo, do ponto de vista democrático, não existe uma constituição perfeita. Todas as disposições constitucionais têm algumas desvantagens. Por isso é que o projecto constitucional ou a revisão exigem juízos acerca das soluções de compromisso aceitáveis entre os objectivos e os riscos e as incertezas da mudança. Ao longo da minha vida, acompanhei, e tenho acompanhado, o falhanço da “democracia presidencial”, nas repúblicas da América Central e do Sul.

Acompanhei, e continuo a acompanhar, o estrondoso falhanço do “presidencialismo absoluto” em África. Acompanhei a ascensão e a queda da maior parte dos regimes autoritários e totalitários na Europa. Essas são as razões que me levaram a partilhar a recomendação de Robert Dahl (Democracia, 1999), quando aconselha que “não seria uma má ideia se um país democrático reunisse, mais ou menos de vinte em vinte anos, um grupo de constitucionalistas, líderes políticos e cidadãos informados para avaliar a sua constituição a luz não só da sua experiência, mas também do conjunto de conhecimentos em rápida expansão obtido a partir, das experiências dos outros países democráticos”.

A democracia é um conjunto de regras e de processos. Engloba, nomeadamente, o princípio da separação e equilíbrio de poderes do poder executivo, legislativo e judicial, a dessacralização dos detentores desses poderes, a afirmação e garantia dos direitos dos cidadãos, e a protecção da vida privada de cada indivíduo.

A democracia exige, evidentemente, a busca do consenso da maioria em relação ao respeito das instituições e das regras democráticas. Para que a democracia possa instalar-se e consolidar-se, é necessário que o maior número de cidadãos acredite nela, e por ela seja capaz de lutar e sacrificar-se, caso seja necessário. Sem um consenso mínimo relativamente a determinados princípios, valores, normas e atitudes, não é possível construir-se uma vida condigna.

Fonte Correio do Patriota

UNITA denuncia clima de terror praticado pelos donos de Angola”

MPLA alega que há uma “estratégia seguida e suportada por diferentes instituições estrangeiras, para denegrir a sua obra, superiormente comandada por Eduardo dos Santos

A UNITA, maior partido da oposição em Angola, manifestou hoje a sua preocupação pelo agravamento “da crise de legitimidade institucional, que enferma o Estado angolano”, com realce para o “clima de terror” registado um pouco por todo o país, até mesmo em Luanda, mas sobretudo no centro do país “para incutir o medo”.

Numa declaração lida pelo seu porta-voz, Alcides Sakala, a UNITA denunciou que nos últimos tempos estão a ocorrer no centro do país, mais concretamente nas províncias do Bié e do Huambo, “actos criminosos que violam de forma sistemática a Constituição da República pelo Estado”.

Alcides Sakala, que também ocupa no partido o cargo de Secretário dos Assuntos Internacionais, denunciou ainda que “há fortes indícios de que titulares de cargos públicos, e através de órgãos do poder Executivo, terão cometido nos últimos dias crimes contra a integridade física de cidadãos”.

No rol de irregularidades, a UNITA denuncia ainda a existência de crimes contra a liberdade pessoal, contra a propriedade e sequestro de cidadãos nas províncias do Huambo e do Bié, onde “mais de uma dezena de cidadãos foram vítimas de violência estatal”.

Entre os casos, foi citado o da comuna de Kalussinga, na província do Bié, em que a governadora municipal “mandou bater e prender” um soba da região, por ter assistido a um comício da UNITA, partido a que pertence.

“Feita a denúncia pública, o governador provincial, Boavida Neto, dirigiu-se a essa comuna na semana passada e proferiu um discurso público, em que ameaçava e injuriava os denunciantes, fornecendo, assim, apoio moral à administradora”, disse Alcides Sakala.

A UNITA prometeu apresentar à imprensa, nos próximos dias, algumas das vítimas e o registo magnético das declarações do governador do Bié.

“Em adição ao roubo do erário público, há fortes indícios de que as mesmas pessoas e as mesmas instituições acusadas de corrupção e fraude, no país e no estrangeiro, são agora acusadas de crimes violentos contra a vida, a integridade física e moral e a liberdade dos angolanos”, salientou Alcides Sakala.

Nas suas acusações de agravamento da crise de legitimidade institucional, a UNITA voltou a incluir a recente proibição imposta aos deputados pelo Presidente da Assembleia Nacional de fiscalizarem os actos de governação.

“Esta proibição permite mais desvios do erário público, a supressão da liberdade de imprensa, a realização de mais obras descartáveis e de cunho eleitoralista, que serão postas à prova pela fiscalização das chuvas, que se aproximam, particularmente na cidade de Luanda”, referiu.

No plano internacional, a UNITA considera que a imagem de Angola “deteriora-se todos os dias”, particularmente em Portugal, China e Estados Unidos da América, como resultado “das fraudes contratuais, desvio e esbanjamento do erário público, da má gestão da conta do petróleo e das linhas de crédito, em especial do chinês”.

Recorde-se, desde há algumas semnas, a direcção do MPLA (partido que governa o país desde 1975) considera “graves e preocupantes” os supostos apelos sucessivos à desobediência civil que estão a ser feitos pela Rádio Despertar, emissora ligada à UNITA. Considera-os antidemocráticos, quase parecendo que Angola é uma democracia e um Estado de Direito.

Numa conferência de imprensa, ou sessão de propaganda, o secretário para a Informação do partido no poder, Rui Falcão, declarou que os “apelos sucessivos” começaram a surgir na Rádio Despertar e têm respaldo nos recentes discursos de alguns dirigentes da UNITA, em particular do seu presidente.

Ao mesmo tempo que critica a UNITA e, dessa forma, incentiva a que mais algumas pessoas choquem contra balas, Rui Falcão pede aos militantes, simpatizantes e amigos do MPLA (ou seja, a todos os que o regime considera angolanos de primeira) a não reagirem a quaisquer provocações, incitações ou convites que contrariem a ordem instituída por um regime que tem um presidente, José Eduardo dos Santos, não eleito há 31 anos no cargo.

“Não podemos cair em atitudes impensadas e irreflectidas trazidas por pessoas que nada fizeram por este país, que o destruíram e continuam, pelas mais diversas formas, a querer atingir o poder”, disse, acrescentando que o poder só é legítimo quando as atitudes são democráticas, o que não é o caso.

Nem mais. A UNITA nada fez, segundo a cartilha do MPLA, por Angola. Todos sabemos, por exemplo, que durante a guerra civil as balas e as bombas do MPLA (primeiro das FAPLA e depois das FAA) só atingiam os maus, ao contrário do armamento das FALA que destruiam tudo. Todos sabemos, ainda, que as bombas lançadas pela Força Aérea do MPLA só atingiam alvos inimigos e nunca estruturas civis.

Aliás, se Rui Falcão e os seus patrões pensar bem até vão descobrir que a UNITA é que é responsável pelos mais de 40.000 angolanos torturados e assassinados em todo o país depois dos acontecimentos de 27 de Maio de 1977, acusados de serem apoiantes de Nito Alves ou opositores ao regime.

Rui Falcão lembrou, ainda, os avanços registados nas áreas económica e social. Explicou que o país saiu de uma situação de inflação endémica, com taxas mensais acima dos três mil por cento e que este ano deve ficar em torno dos 13 por cento. Para 2011, indicou, a inflação pode, pela primeira vez na história do país, ficar em um dígito.

“Isso pressupõe mais disponibilidade para o investimento público, mais crescimento, mais emprego e redução da miséria”, disse. Devido ao esforço titânico do MPLA, angolanos pobres vão deixar de ser cerca de 70% para passarem a ser… 69,99%.

Rui Falcão afirmou que é pensando nos angolanos que o MPLA continua a trabalhar na melhoria da governação e na gestão da coisa pública. Tem razão. Se se excluir todos os que o MPLA considera angolanos de segunda, a situação até está a melhorar…

“Conquistámos a paz e, fruto disso, obtivemos a estabilidade social e económica e estamos entre as economias que mais crescem no mundo. Mas há ainda quem não esteja satisfeito com o crescimento que Angola tem vindo a conquistar”, disse.

De facto é injusto não reconhecer o esforço do MPLA. O partido que governa Angola desde 1975 ainda precisa aí de mais uns trinta anos para pôr o país em ordem. Se calhar o tempo pode ser menos. Basta acabar, pela fome ou pela força das armas, com todos aqueles que são de segunda.

Acrescente-se que Bureau Político do MPLA repudiou, em comunicado, a “estratégia seguida e suportada por diferentes instituições estrangeiras, perfeitamente identificadas, e organizações e indivíduos, incluindo cidadãos nacionais, recrutados para servirem de pontas-de-lança, visando manchar tudo quanto o Poder Executivo faça”.

E para além de repudiar pôs em campo, tanto em Angola como no exterior, os seus seguidores. O jornalista da Rádio Despertar, assassinado em sua casa, foi um dos primeiros a sentir que o MPLA é dono do país.

“Conhecedor da estratégia gizada por essas organizações e instituições estrangeiras, aliadas a organizações e cidadãos nacionais contratados, o Bureau Político apela a todos os militantes a manterem-se firmes no cumprimento dos ideais do MPLA”, sublinhava a nota.

Tão firmes quanto a força das balas, dos dólares e de outras estratégias para calar todos os que ingenuamente ainda acreditam que a força da razão vale mais do que a razão de força.

Fonte: noticias lusofonas

NA HORA DE BALANÇO DO ALCANCE DOS OBJECTIVOS DE DESENVOLVIMENTO DO MILÉNIO

Posted 25 Sep 2010 — by Luiz Araújo
Category Direitos Humanos - Comunidades

“Os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio estão a excluir os mais pobres”

23/09/2010 — A Amnistia Internacional alertou hoje para o facto do plano de acção acordado pelos governos sobre os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM), ter falhado no cumprimento e respeito pelos direitos das pessoas mais pobres do mundo.

Apesar da evidência esmagadora de que milhões estão a ser deixados de fora dos ODM porque a discriminação e outras violações de Direitos Humanos os impedem de terem acesso aos serviços básicos, os lideres mundiais falharam ao não aproveitarem a oportunidade para colocar os Direitos Humanos no coração dos ODM, na Cimeira das Nações Unidas em Nova Iorque esta semana.

“A cinco anos do fim, é completamente inaceitável que os líderes mundiais ainda não tenham chegado a acordo no sentido de tomarem acções concretas para acabar com a discriminação e outras violações aos Direitos Humanos que impedem os ODM de beneficiarem aqueles que mais precisam deles”, disse Salil Shetty, Secretário-geral da Amnistia Internacional.

“Embora o plano de acção inclua afirmações reconhecendo que «o respeito, a promoção e a protecção dos Direitos Humanos são uma parte integral do trabalho efectivo em direcção ao cumprimento» dos ODM, não há qualquer continuação em termos de compromisso para levar a cabo acções tangíveis.”

E apesar de muita retórica sobre a importância da responsabilização, a Cimeira falhou em identificar uma forma efectiva de responsabilizar os governos para atingirem os seus compromissos com os ODM e para assegurar que o seu esforço para alcançar os ODM seja consentâneo com as suas obrigações de Direitos Humanos.

“Com efeito, os líderes mundiais estão a pedir-nos que confiemos neles, um pedido inacreditável quando vemos a diferença entre o que lhes é pedido que façam e o que fizeram efectivamente”, disse Salil Shetty.

A meta dos ODM sobre os bairros degradados ignorou mais de mil milhões de pessoas nos últimos dez anos, pois só se comprometeu em melhorar as vidas de 10 por cento das pessoas que habitam estes bairros. E o plano de acção ainda não visa este desafio sério e crescente. Apesar de estar provado que os desalojamentos forçados em massa estão a empurrar as pessoas para maior pobreza e, desta, forma a minar todos os ODM, não existe qualquer apelo instando os governos para que acabem com esta prática. Em vez disso o plano fala em “reduzir as populações dos bairros degradados”, apesar das preocupações de que isto possa encorajar mais desalojamentos forçados.

A Cimeira não abordou as causas na origem da falta de progresso em alcançar os ODM. Por exemplo, a questão do aborto não seguro foi ignorada, apesar de ser uma das causas da mortalidade materna e portanto uma ameaça séria ao cumprimento da meta ODM relativa à mortalidade materna.

Embora o plano de acção inclua uma nota positiva sobre o combate à discriminação de género, não identifica o que é que os governos deveriam fazer para resolver a discriminação e as barreiras enfrentadas por muitos outros grupos – incluindo minorias, pessoas com deficiência e Povos Indígenas.

“Os governos estão obrigados pela legislação Internacional de Direitos Humanos a cumprirem o direito de todas as pessoas à alimentação, à saúde, à habitação e à água potável. Contudo, perdem tempo precioso das negociações a discutir se as obrigações de Direitos Humanos que assinaram há mais de 40 anos devem sequer ser referenciadas no plano de acção”, disse Salil Shetty.

“Se os ODM servem para alcançar uma mudança verdadeira, os líderes mundiais deveriam adaptar as suas políticas e práticas nacionais às obrigações de respeitar e promover os Direitos Humanos”, disse Salil Shetty.

“A Cimeira falhou em especificar mecanismos de responsabilização claros e vinculativos. Mas os líderes mundiais ainda podem actuar – e assegurar que os ODM não falham para com os mais pobres do mundo”, disse Salil Shetty. “O caminho do futuro passa agora por os governos estabelecerem individualmente metas nacionais para o cumprimento dos direitos económicos, sociais e culturais. Devem também tomar medidas para pôr fim à discriminação e assegurar que as pessoas que vivem na pobreza possam participar nos esforços para o cumprimento dos ODM e que possam responsabilizar os seus governos recorrendo aos tribunais e órgãos regulatórios.”

Comunicado de imprensa – Amnistia Internacional

Fonte: HREA

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A Human Rights Education Associates (HREA) é uma organização internacional não governamental que apóia a educação e a capacitação de ativistas e profissionais em direitos humanos, o desenvolvimento de materiais ou programas educacionais e a formação de redes comunitárias.