
ONDE ANDAM OS INTELECTUAIS “REVOLUCIONÁRIOS” ANGOLANOS?
As vozes “revolucionárias” ainda vivas de intelectuais angolanos que se pronunciaram contra o mobutismo calaram-se quando o regime do MPLA se tornou semelhante ao de Mobutu na acumulação de riqueza faraónica – da noite para o dia – pelo clã do ditador José Eduardo dos Santos e pelos seus agentes.
Porque é que agora não erguem o grito de indignação contra as mesmas práticas em Angola?
Senhores intelectuais “revolucionários” – ainda vivos – que marcaram essa época pós independência de Angola, temos a obrigação de vos lembrar e convocar-vos para a renovação do verbo e do gesto contra a traição á luta pela dignidade de todas e todos que há muito instalou a subjugação de todos nós.
Senhores intelectuais vocês e todos nós estamos face á obrigação de tratar a cosa como ela é, não será?
Estamos face àquilo que o meu amigo João Leonardo de Sousa, estudante angolano no México, classifica como ANGO-DEMOCRACIA e que complemento classificando como ANGO-DEMOCRACIA-CLEPTOCRÁTICA. É que, considere-se nem todos os ditadores são cléptoditadores, como, para exemplificar, foi o caso do ditador português António de Oliveira Salazar,.
Uma cleptoditadura é uma mafia no poder. É semelhante ás que na sua época “revolucionária” a ditadura do MPLA contestou e confrontou numa de purista africano da ética em nome da construção da República Popular de Angola, “socialista”, cujo fundador - de quem o ditador José Eduardo dos Santos herdou o poder – declarou como sua meta a “resolução dos problemas do povo”, etc & tal…
Afinal os intelectuais “revolucionários” que sustentaram essa fabricação política acabaram de facto sendo os cúmplices da criação dum polvo gigante. A cosa particular do ditador em que o Estado de Angola foi sendo transformado. Não será?
Um poder total – preservado no pós partido único constitucional – que como o de todas as cosas continua a ser resguardado por capos que montaram e desenvolveram uma polícia política (SS) que já massacrou, excluiu, exclui, prendeu, desterrou em campos de concentração que, “revolucionariamente”, a cosa apodou de campos de “reeducação”, como a kibala e Bentiaba, herança da PIDE a policia fascista na época final do colonialismo português. Afinal, de facto, a SS angolana tem sido como as de todos os mobutus que em África subjugaram, mataram e continuam a matar. É a estrutura de capos SS da cosa que actualmente subjuga a inteligência do país em Angola.
E os tais intelectuais “revolucionários” de outrora, “os outrora digníssimos arautos dum mundo novo”, porque é que não se batem contra isso?
Nem sequer para se limparem se dão com o verbo empolgado como o que usaram contra predadores semelhantes que apodavam de lacaios do imperialismo neocolonialistas. Predadores que transformaram os seus países em imensas propriedades pessoais e os seus estados em economatos particulares dessas empresas privadas. Países africanos em que todos os outros cidadãos, especialmente os mais desfavorecidos de sempre, novamente, agora também em Angola, endocolonialmente, foram repostos no lugar do contratado colonial. O lugar do escravo gentio paradoxalmente reproduzido na sua pátria independente pelos que se bateram contra o colonialismo em nome da realização das suas aspirações á plena cidadania e ao desenvolvimento humano.
Levantem-se senhores intelectuais. Ousem novamente o verbo e o gesto para que o monangabê que novamente come fuba podre, peixe podre, apanha porrada se refilar e agora ainda se vê desalojado á força e expulso da cidade e da cidadania se torne um homem livre, se torne pleno cidadão da sua República e de facto soberano.
Afinal é esse ou não o compromisso dos intelectuais com a sua nação e a humanidade? Ou o silêncio dos intelectuais outrora libertários é o encolhimento canino servil que nos mostra que afinal toda a sua acção pela dignidade era só uma brincadeira de faz de conta contra valores inaceitáveis mas que, como não os contestam, agora acolhem mesmo se contra a sua vontade?
Senhores intelectuais “revolucionários” de outrora vocês sabem bem que foram os nossos ícones da inteligência, do sentimento patriótico e humanista, os ícones da coragem e da dedicação ao povo e ao país. Por essa razão obrigo-me a dizer-vos que a maioria de vocês, em função da vossa postura omissa face á ditadura de José Eduardo dos Santos se transformaram em ícones da insensibilidade perante o sofrimento do povo e deixaram-se transformar em ícones da incoerência e da cobardia. Só a vossa acção pelo fim da ditadura vos poderá livrar do registo na nossa história dessa percepção do papel que vêm representando pela omissão face á reprodução em Angola dum usurpador do país de tipo mobutista que o trata como sua propriedade pessoal nas circunstancias actuais de África e do Mundo.
Levantem-se e exijam dignidade. Inscrevam o vosso verbo na continuação da libertação das angolanas e angolanos. Juntem-se á juventude que se vem levantando em manifestações de exigência de dignidade por todas e todos nós.
Tivemos-vos como referências duma nação em construção que teve e continua a ter como meta o desenvolvimento humano e o bem estar de todas e todos. Uma nação que queríamos e continuamos a querer que seja a nação de povos em harmonia entre si e com quem por si escolhido exerça o poder para a servir em vez de para se servir.
Angola necessita e espera pelo verbo e pelo gesto dos seus intelectuais para – com o povo de que emergem – fazerem a pátria da liberdade que escreveram e cantaram antes e no pós independência do nosso país, Angola.
EXIGE DIGNIDADE COM DIGNIDADE
Luiz Araújo











